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"Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã.

(…)”

1 de maio de 1998

Encontrei-me no quarto de Otávio, a música de Beatles ecoava na sala, mas não me lembro qual música era ao certo, estava grogue o bastante para isso, mas ainda reconhecia a voz de Lennon. Ele me beijava avidamente, seus dedos percorriam minha pele quase nua, foi então que me veio o rosto de Juan na cabeça. Apenas teus dedos já haviam percorrido minha pele daquela forma, me veio um súbito desejo de correr ou ser engolida pela terra. Peguei minha roupas e sai correndo, sem nem explicar, deixei ele ali com cara de idiota e desci as escadas do prédio feito louca ainda vestindo minha roupa. A rua tava fria, eu cheirava a álcool e na minha fuga alucinada esqueci o casaco para trás e nele meus últimos cigarros. Minha casa não ficava muito longe dali, uns três quarteirões, mas a caminhada parecia sem fim, percorri as ruas meio cambaleando, meio trêmula, consegui um cigarro com um conhecido que saia de um bar - mas só durou por metade do percurso. Encontrei com alguns dos vizinhos pelas escadas, que me olharam de lado, lá estava eu de novo, cheirando a tabaco e tequila, com a cara vermelha, toda amassada, e com a aparência deplorável, não os culpo por me olharem sempre assim. Ao entrar em casa me desabei no sofá e fiquei ali estática olhando pro nada e pensando em tudo. O que Juan diria? O que fiz? O telefone tocou umas 12 ou 15 vezes. Mas o que fazia minha cabeça explodir era a frase que sei que Juan provavelmente teria me dito ao saber do ocorrido. “Que isso Sofia, cadê a garota que fala em liberdade, feminismo e outros pensamentos filosóficos tão revolucionários, você não passa de uma farsa, se esconde por trás de suas utopias, mas volta pra casa correndo e chora encolhida como um gatinho. Vá viver sua vida.” E ele sempre tem razão, eu não sou nada mais que uma farsa.

SANTOS, Ana Carolina em Diário de Sofia.

queria dar vazão as minhas lágrimas para correrem as ladeiras das maças do meu rosto, deixá-las lavarem meu relevo.

j.

Faz

Traz o teu amor
Me encanta o teu amor
Ameno
Nisso eu acredito mais que tudo
Traz o teu amor
Me empresta o teu amor
Queremos
Todo mundo gosta mais que tudo

Vivo o teu amor
Só quero o teu amor
Sem falta o teu amor
E além do teu amor
Você ao infinito pra mim
Ao infinito
Ao infinito pra mim
Ao infinito
Ao infinito pra mim

Leva o meu amor
Tempera o meu amor
Veneno
Bate e vê se deixa mais enxuto
Leva o meu amor
Estraga o meu amor
Veremos
Quebra e vê se deixa mais enxuto

Deixa o meu amor
Não quero o meu amor
Vai, mate o meu amor
E além do meu amor
A mim
Que eu me demito por fim
Que eu me demito
Que eu me demito por fim
Que eu me demito
Que eu me demito por fim

Phill Veras

Dentro de mim mora uma criança de olhos grandes que ainda quer descobrir o mundo. A inocência que contorna o meu peito é cega e o mais puro pecado já entorna o meu corpo dos pés ao último fio de cabelo. Mas o peito tá guardado, o peito não sabe o que acontece no furacão dos teus olhos. Atravesso o dia querendo crer na liberdade do mesmo pássaro que canta ao sereno em cima do fio de luz. O céu cospe gasolina e o inferno se faz na terra, mas não me inflama: viro brasa, queimo e mato o solo em que você pisa com tanta crença.

A criança dentro de mim não sabe de nada que acontece lá fora.

A criança dentro de mim está escondida.

Ela não sabe que fui eu que acendi o pavio.

cruzar a madrugada num piscar de olhos orvalhados. sem peso as pálpebras pousam e se abrem na cadência calma da neblina. tocando as cortinas trocando de cor: já vem a manhã e jazz o pensamento mais quieto. o quarto desperta com a luz das visões do além-sonho. o navegar cada vez mais sopro solto do corpo. revela visões espontâneas do inabalável estado de ser o olhar e não o olho. ocupar um pequeno espaço mas ser um com o momento de tudo. isto é a intuição de estar vivo? sinto que isto me imagina. isto me existe. isto me capta às paredes do corpo. o universo inteiro contido neste momento. agora, o planeta é uma rocha impessoal. um ponto flutuante num poço negro. sobre a crosta dessa pedra tudo está exatamente no mesmo momento. sempre. todos girando. ninguém adiante, ninguém atrás. inclusive os relógios. girando. os que dormem. girando. os que morrem. girando. num momento comum a todos. isto não é uma intuição. isto é uma prova, como a ascensão e a decadência do sol. como a sucessão de mudanças que não param. cada qual na sua substância do destino, mas nada escapa à constante mutação. o céu se configura de maneira rara a cada momento quadro a quadro. o cometa faz a ponte entre o poente e a nascente. os sentidos adormecem nesse jejum de sono. disso surge um estalo. um salto quântico no oceano de possibilidades. o transbordo de se dissolver no ar: por um instante captar a unidade de não ser nada em específico. mas depois, por inércia idiota, voltar a ser engolido pela subjetividade limitada ao sonho pessoal. e infelizmente cair no sono de novo.

Pegue o mesmo ônibus que eu hoje querida, eu sei que o fim da linha dele fica umas 4 quadras da sua casa e a sua mãe fica brava quando você se atrasa, mas diga que foi por uma boa razão. Eu divido meu fone de ouvido com você durante a viagem, perdão meu péssimo gosto musical mas o seu também não é dos melhores, você está lendo Álvares eu não sei nada sobre ele mas posso te ouvir falar, você sorri quando fala do que gosta, você sorri quando fala comigo, será que gostas de mim? Eu gosto de você e esse é o motivo de eu ter feito você perder o ônibus, você está linda hoje, branco combina com você. Gosto quando você vem com sua blusa do filme submarine, já assisti ele e ele me lembra você, quando vejo as fotos do filme imagino nós dois, o seu cabelo é parecidíssimo com ela e eu já me peguei pensando como as pessoas reagiriam ao meu enterro, Posso te dar um beijo? Seus lábios me chamam, posso te chamar de minha? Quero ser seu teu, posso te chamar pra sair? Um cinema ou uma livraria, conversas fiadas e te faço uma poesia, sobre seu cabelo channel, seus olhos pequenos e castanhos, sobre como você fica linda de branco, seu doce beijo e sobre a minha vontade que você perdesse o seu ônibus todos os dias.
Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante: assusto-me. Sou tão medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que não têm pudor, as leis a obedecer, o assassinato — tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam ao ver sangue: o estudante de medicina com o rosto pálido e os lábios brancos diante do primeiro cadáver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus.
Clarice Lispector. 
Conhecemos pessoas, até mesmo perfeitos estranhos, que começam a ser interessantes num primeiro olhar. São interessantes, não se sabe como, sem dizerem uma palavra.
Fiodor Dostoievski 

Em Vias de Escrever Qualquer Merda

 Aquele período entre a esferográfica ensopar as páginas da minha alma com a tinta tóxica dos viveres assanhados e a neutralidade dos meus olhos serenos que correm o caderno folha a folha na pressa de chegar a uma contracapa que não há. Nesse período a incerteza domina a cada escrito do mais fútil ao mais profundo, do mais visitante ao mais visitado.
 Trancam-me os sonhos em becos manhosos para os quais não fui preparado de antecedência com obras incompletas e falhas nos parágrafos. A busca por uma saída mantém o real inacabado e faz as vírgulas levitar a procurar lacunas que escaparam sem se saber.
 Lá ao fundo acenam-me paradigmas, dogmas, mitos e monges copistas curvados em trabalhos de impressora à Idade Média. Viro as costas, corro na direcção oposta à espera de ler um aviso que me diga “AVISOEstá em Terras de Ninguém, agora é consigo.”.
 Gostava de fechar bem este capítulo, gostava de dizer que tem autenticidade, que tem palavras novas que ninguém percebe… Há momentos em que digo: “É isto mesmo, sei que está uma merda mas é uma merda à qual não quero alterar nem uma vírgula”. Este não é o momento.

Manuel Seatra
03/09/2014
22:55h

Nota sobre ser anti social XXXIII

A solidão já é endêmica, atravessa os tempos. Me encontro nos versos tristes de Álvares e não me importo que esse meu gosto pela sua poesia melancólica e solitária me cause crises de choro. De fato não procuramos a cura para este mal que nos acomete, não há aquele que não goste de curtir uma pequena dose de solidão.

SANTOS, Ana Carolina.

mudo.mp3

sempre o mesmo poeta
no silêncio da linha torta
no silêncio da paixao morta
no silêncio
que teu silêncio corta
no teu silêncio
que vai
no meu silêncio
que volta
sempre o mesmo poeta
se o verso
é o silêncio da voz
o que dirá esse silêncio
quando ele for tudo
que restar de nós?